m u k a s h i



Mukashi, mukashi... assim começam os contos populares do Japão — são histórias que acontecem em algum tempo distante, num lugar que não sabemos exatamente onde, conhecidas como mukashi banashi. Nessas narrativas, os animais se transformam, um casal de velhinhos encontram uma menininha dentro de um bambu, um pescador viaja nas costas de uma tartaruga, as pessoas se deparam com espíritos da floresta, um jovem casa-se com uma ninfa celeste, os heróis recebem o auxílio das divindades na luta contra os monstros. Em geral, essas histórias falam de personagens humildes que têm o seu cotidiano transformado por um acontecimento inusitado.


Uma das mais conhecidas figuras que habita o imaginário popular japonês é o oni que, quase sempre, aparece como um monstro terrível e gigantesco. Desempenha a função do vilão e representa a fúria, mas pode ser nossa própria consciência. Por isso, nem todos os onis são iguais: alguns são vermelhos, outros cinzentos, verdes ou ainda azuis. Também existem onis do tamanho de uma criança, são os mais engraçados e brincalhões.


Quem se aventura nas montanhas, em
noites de tempestade de neve, pode encontrar a Yukionna. Dona de uma misteriosa beleza, ela embala os homens que perdem o caminho, arrastando-os para a morte.



A yamauba
(velha da montanha) é um espírito feminino que também habita a montanha e geralmente surge como uma criatura horrível e pavorosa. Porém, em algumas ocasiões, elas prestam auxílio àqueles que por lá se perdem.




No Japão, acredita-se que tudo na natureza é habitado por um kami. E o que é um kami? Podemos entender como deus, a divindade, espécie de alma, o sagrado. Segundo a mitologia, um casal de deuses, Izanami no kami e Izanagi no kami, foi responsável pela criação do arquipélago japonês. Depois, foram surgindo os seus descendentes, numerosos kamis: das montanhas, das águas, das pedras, do sol, da lua, da tempestade, do fogo... As histórias que narram os feitos dessas divindades compõem o Xintoísmo que significa “o caminho dos deuses”.

É preciso lembrar que, no Xintoísmo, não existia uma doutrina moral, como recompensas ou castigos. Estas idéias foram introduzidas posteriormente com a chegada do Budismo, no século VI. Nos dias de hoje, essas duas religiões convivem lado a lado e estão na base das lendas e dos contos populares japoneses. Para o verdadeiro herói, não basta apenas coragem, é preciso estar em sintonia com tudo o que o cerca — a natureza da qual ele faz parte, os kamis e seus antepassados.


Entre os animais, destacamos
a figura da raposa, mensageira de Inari (divindade dos cereais). Conta-se que a raposa tem o dom de se transformar em tudo que desejar: pessoa, plantas, objetos...
Ou então, ela faz
ver miragens para zombar dos humanos e, por isso, são temidas e admiradas ao mesmo tempo.
Também o texugo tem as mesmas habilidades, porém, nas histórias, são figuras mais cômicas.


O macaco, um outro animal bastante presente nos contos populares, interage com pessoas ou outros bichos sempre com a sua sagacidade.


O Ryu é um animal mítico, conhecido no ocidente como o dragão chinês. Seu corpo é alongado tal uma serpente com quatro pequenas patas em garra e ele tem juba, dois chifres e as barbas longas e finas como a de um bagre. Fala-se no Paraíso do Fundo do Mar onde fica o maravilhoso Caselo do Dragão, mas este animal pode habitar tanto no lago como também nas nuvens.

* adaptado do posfácio de Contos da montanha (Edições SM, 2005).