Quando era bem pequena, minha avó rabiscou um peixinho no chão do nosso quintal de terra. Gostei tanto que desenhei também e nunca mais parei. De lá para cá foram muitos peixes. Além do quintal, também as paredes das tulhas e o terreiro onde meu pai espalhava café enchiam-se de garatujas.
E era divertido usar, no lugar do lápis, o carvão retirado do fogão a lenha. Lembro que os meus rabiscos sempre tentavam contar histórias.

Aprendi a ler com meu avô. Os livros lá de casa eram, em sua maioria, escritos em japonês e conheci também alguns ehons, livros com ilustração. E acho que foi a partir desses livros que nasceu o meu desejo de escrever e ilustrar. Na época, nem sabia que existia essa profissão, apenas sonhava um dia trabalhar com desenhos.

Um pouco antes de fazer 16 anos, vim para São Paulo conhecer mais o mundo. Asahi significa “sol da manhã” e era o nome do sítio do meu pai em Duartina — para mim, o fim e o começo do mundo.

Na Faculdade de Belas Artes, tive o primeiro contato com o ensino da arte. Depois que me formei, descobri a possibilidade de ir para a área de ilustração. Participei de Salões de Pintura, conquistei alguns prêmios, mas gostava mesmo de narrativas, do objeto livro, das cenas em seqüência, do universo que se abre a partir desse espaço.

Em 1988, recebi uma bolsa de estudos para a Universidade de Educação de Fukuoka no Japão. Escolhi, como tema de pesquisa, o ehon, ou seja, o livro ilustrado. Lá, fiz uma exposição de desenhos com cenas de feira, festa junina, personagens do folclore e paisagens brasileiras, que fez bastante sucesso. Retornei depois de um ano e comecei a recontar e ilustrar os contos e as lendas japonesas que eu ouvia quando criança... Busquei inspiração nas composições japonesas e estudei a técnica do sumiê que tento introduzir nos meus trabalhos.



O quintal onde brinquei e tive os meus primeiros bichos, tanto verdadeiros, quanto imaginários, ficou na memória como furusato. Aprendi com minha avó que furusato é onde a gente nasce, mas também é o lugar aonde vamos, em pensamento, quando estamos tristes ou felizes. Hoje tento recriá-lo, com desenhos e palavras.

Faltou ainda contar que tenho 7 irmãos, 10 sobrinhos, meus pais moram em Bauru, o meu avô faleceu com 92 anos. A minha avó está com 104 anos e ainda falamos do furusato e dos peixes.