Meu avô Chube e e minha avó Orie, com suas três filhas, em 1933. Nesse tempo, meu pai nem havia nascido...
O chão de Asahi,
um retrato familiar



A minha avó possuía uma memória fantástica. Contou que, quando moça, ouvia dizer que o Brasil era um paraíso. Nessa terra imensa e fértil, até mesmo existia uma árvore que dava ouro. Seria verdade? A vida no Japão não estava nada fácil, então, ela decidiu se casar com o rapaz vizinho, o meu avô, com o objetivo de seguir para esse país distante. A condição para a viagem era que a família tivesse, ao menos, três pessoas para se dedicar ao trabalho. Meus avós tinham pouco mais de vinte anos e até arrumaram um filho postiço, um garoto de 14 anos que também queria emigrar para essa terra de tantas promessas.
Kawachi Maru é o nome do navio em que eles partiram. Durante a viagem, meu avô gastou todo o dinheiro que trazia — afinal, não iria ganhar muito chegando ao Brasil? Na idéia dele, em pouco tempo, voltariam ricos para o Japão... Chegaram ao Porto de Santos em 1925 e o primeiro susto na terra estrangeira foi com a comida. Na hospedaria dos imigrantes, serviram uma carne com osso, algo que eles nunca tinham visto.
Foi necessário ainda um longo caminho de trem, mais outro tanto de jardineira, para que meus avós finalmente alcançassem a região noroeste do estado de São Paulo. Outro susto. A casa era só um paiol. Deitaram-se entre palhas, os bichinhos do milho subindo pelo corpo... Impossível dormir. Pensaram em voltar? Acredito que sim, mas estavam longe demais da terra de onde partiram.

O tempo é mestre em tornar alguns acontecimentos difíceis em histórias engraçadas. Minha avó chegou a pensar que salame era carne podre, quase colocou açúcar no feijão, teve um conhecido que foi lavar roupas com queijo, confundindo-o com sabão. Um outro senhor comprou um penico sem saber, parecia ideal para servir cozido. Mas o convidado se recusava a comer... Desse tempo, minha avó guardou também a imagem das plantações de algodão, cheias de pequeninas nuvens brotando — só não havia tempo para apreciar a beleza, era trabalho que não acabava nunca.
Depois de alguns anos e muito trabalho, meu avô se juntou com outras famílias para comprar sua própria terra. Fizeram mutirão, abriram o mato e deram ao lugar o nome de ASAHI, que significa ‘sol da manhã’. Enfim, todos conquistaram o próprio chão.


A casa de Asahi, em 1966.

Esse foi o lugar onde nasci. Quando eu era criança, a paisagem dali era composta por imensos cafezais e plantações de amora; tinha também pés de caquis e poncãs. Minha avó sempre foi uma excelente contadora de histórias, meu avô um espírito aventureiro, que sempre rendia boas histórias, e um inventor. Gostava de criar móveis, utensílios de madeira e, às vezes, alguns brinquedos. Tudo muito caprichado. Sua obra prima, todos diziam, era aquela que ficava na casinha azul externa à nossa casa. Era um espanto para as visitas: diferente de todos os banheiros da região, naquela época, que era só um buraco no chão de tábua, o nosso tinha um assento no formato de um cavalinho, também pintado de azul!

Antes de entrarmos para a escola rural, o meu avô decidiu ensinar os netos a ler e escrever os caracteres japoneses. Logo, poderíamos ler os livros que existiam em casa. Achei ótimo. Todos os dias, vinha ele nos chamar depois do almoço:
Benkyo!
Contudo, quando algum vizinho vinha convidá-lo para uma partida de shoogi (xadrez japonês), aí podíamos esquecer das lições... Meu avô morreu com 92 anos. E a minha avó, quando faleceu, ia completar 105, um ano antes das comemorações de 100 anos da imigração.

Um dia, minhas irmãs e eu decidimos rever o sítio onde nascemos. Quem sabe aquela casa ainda existia? Saímos da cidade de Duartina por uma estrada de terra. Primeiramente, uma ponte, depois uma subida íngreme, um rio, uma curva, um bambuzal. Mas e o sítio? Não reconhecemos a entrada — o cafezal não existia mais, nem as amoreiras.
Lembrei-me do que a minha avó disse, quando perguntei se ela tinha muita vontade de voltar ao Japão. Ela respondeu que não e completou: “Acho que não vou reconhecer mais. O lugar que eu nasci fica na minha memória, continua do jeitinho que eu deixei. Será um eterno furusato (terra natal).”

Álbum de família